“Você viu meu Neosoro?!” eu questiono meu marido no meio da madrugada com as narinas entupidas e a sensação crescente de pânico. Sinto que vou desmaiar e, até eu não encontrar um dos milhares de frascos espalhados pela cama, eu não me acalmo.

O uso do mais popular descongestionante nasal do Brasil se tornou mais do que um paliativo, mas um vício admitido no meu cotidiano. Eu não nego: sou viciada no remédio.

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Parece tolice para quem nunca passou por uma crise de congestionamento nasal, mas para quem conhece os efeitos tóxicos de todos os descongestionantes à base de cloridrato de nafazolina, entende que respirar normalmente é um luxo que não se recupera sem aquelas pequenas gotinhas nas narinas.

A ação do cloridrato de nafazolina é rápida. Duas ou três gotas já agem fazendo o ar entrar nos pulmões com intensidade. Nesta rapidez, portanto, reside o perigo: o composto contém substâncias vasoconstritoras que reduzem o fluxo sanguíneo. Porém, o uso contínuo faz com que o resultado seja cada vez menor, o que causa o “efeito rebote”: cada vez que você usa, o efeito é menor do que o anterior e, consequentemente, o uso prolonga e a dose é maior. Esse efeito é diagnosticado clinicamente como rinite medicamentosa.

Desde os 16 anos eu uso o Neosoro. Se no início, o uso era restrito aos períodos de resfriado, atualmente, seis anos depois, eu o utilizo a qualquer hora do dia. A dependência me obriga a comprar até 4 embalagens por semana. O Mercado, naturalmente, lucra com o vício. O Neosoro Ad é o remédio mais vendido pelas farmácias do Brasil, segundo a consultoria QuintilesIMS.

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“Mas porque você não larga?!” - a pergunta soa débil aos meus ouvidos. Não é fácil largar um vício. Dar adeus ao cloridrato de nafazolina requer um afastamento cruel que, como qualquer vício, agride o usuário dentro daquele “inferno da reabilitação”.

Lembro-me de uma viagem que fiz à trabalho em um barco para uma região isolada no Pantanal. Achei que dois vidrinhos de Neosoro seriam suficientes para sete dias no Rio Paraguai. Porém, dentro das cabines refrigeradas, senti minhas narinas irem congestionando mais do que usualmente. No quarto dia de viagem, o segundo vidro do remédio já estava no fim. No quinto dia, já comecei a passar mal: um desequilíbrio tamanho que me provocou vômitos, tontura e uma sensação perturbadora de asfixia.

Não sei como consegui lidar com aquela sensação de pânico que se transformou em sintomas fisiológicos. Quando atracamos no Porto de Corumbá, eu corri para uma farmácia em um estado preocupante.

COMO DESCONGESTIONANTE NASAL AGE NO ORGANISMO?

A congestão nasal, ou o popular nariz entupido, nada mais é do que uma reação do organismo a condições inflamatórias, infecciosas e até anatômicas, como desvio do septo e presença de pólipo, nas narinas.

Quando um agente irrita a região, vasos sanguíneos se dilatam, o volume de sangue aumenta e os cornetos incham – obstruindo a passagem de ar.

Os descongestionantes nasais provocam a sensação de alívio às narinas por conterem substâncias vasoconstritoras, como nafazolina, fenoxazolina, oximetatazolina, fenilefrina e pseudoefredina em sua composição.

Consequentemente, os vasos do nariz se contraem após a aplicação do produto, o fluxo de sangue diminui, o edema da mucosa reduz, a produção de muco baixa e a pessoa tende a respirar melhor.

HÁ ESPERANÇA?

Há. Pelo menos, conforme os especialistas, há maneiras de se diminuir o uso de descongestionante até torná-lo inutilizável no cotidiano. Dificilmente o paciente consegue deixar de usar a medicação sem realizar um tratamento junto ao otorrinolaringologista. Mas, uma dica para livrar-se da dependência é diluir o descongestionante em soro fisiológico, gradativamente, até a total eliminação da droga.

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