O atendimento começava bem cedo, e o Sol não perdoava durante todo o trajeto - sempre pelo Rio taquari. / Imagem: Fábio Marchi

Corumbá -  A vida no Pantanal Sul-Matogrossense não é tão romântica e simples, como as novelas um dia já mostraram nas telinhas. E os documentários da TV sobre o tema dificilmente conseguirão demonstrar como é viver entre mosquitos, abelhas assassinas, onças famintas e piranhas vorazes. E tudo isso em um lugar tão distante que, para se chegar até lá - saindo do porto de Corumbá, cidade que fica cerca de 430 km da capital Campo Grande - demora em média 12 horas de viagem, através de um barco com grandes chances de encalhar nos bancos de areia traiçoeiros, provocados pelo assoreamento do Rio Taquari.

Todo o acesso era realizado através de lanchas do tipo "voadeira". / Imagem: Fábio Marchi

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Esse mesmo lugar não possui postos de saúde, água encanada, energia elétrica, telefone, internet, ar-condicionado e é claro, se alguma coisa der errado - você estará com grandes problemas a serem resolvidos. 

E foi nesse lugar - a região do Taquari - a mais inóspita região  do Pantanal, que o Programa “Povo das Águas” levou a sua quarta edição deste ano (2017).

O Programa

O programa “Povo das Águas” - em atividade desde 2009 - é uma iniciativa da Prefeitura de Corumbá, cujos parceiros variam de acordo com a edição, mas geralmente oscilam entre Marinha, Exército, entidades governamentais e outras entidades não-governamentais. 

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Esta edição teve a participação de médico e enfermeiro do Exército Brasileiro.

O programa visa levar atendimento médico e odontológico à população ribeirinha, além da manutenção da carteira vacinal humana e animal, acompanhamento familiar, cadastro de pessoas, emissão de documentos, encaminhamentos e várias outras ações que de certa forma, fazem com que o ribeirinho sinta-se mais incluso socialmente.  

Uma voluntária também participou desta edição, cortando cabelo dos ribeirinhos. / Imagem: Fábio Marchi

Esta edição realizada na área do Taquari contou com uma equipe multidisciplinar - com o apoio do Exército Brasileiro, da EMBRAPA - Pantanal (que doou vacinas animais) e da Maçonaria (que doou brinquedos para as crianças ribeirinhas) além de pessoas que se voluntariaram em ajudar.

Os números do Programa “Povo das Águas” no Taquari para cinco dias de atendimento impressionam, a julgar pela pequena quantidade de pessoas envolvidas na ação - e principalmente, pela dificuldade no deslocamento entre uma localidade e outra.
 

Maior dificuldade do Programa nesta edição foi o acesso. / Imagem: Fábio Marchi

Região do Taquari - o desafio de chegar lá

A equipe do Programa Social “Povo das Águas” sofreu um pouco durante essa etapa de atendimento do Programa: foram cinco os “pontos de encontro”, os locais para onde os ribeirinhos deveriam dirigir-se para receber o atendimento: Corixão, Cedrinho, Porto Figueira, Porto Sagrado, Sant’Ana e Limãozinho e Rio Negrinho.

Porém nosso navio só conseguia chegar até um certo trecho onde a navegabilidade era segura - dali em diante, todo o acesso era realizado através de lanchas de 6 metros, as famosas “voadeiras” com motores de 40Hp.
 

Todo o acesso era realizado através de lanchas de 6 metros, com motor 40 Hp.

Para se ter uma idéia das distâncias percorridas sob o sol que não deu trégua em nenhum dia, do nosso navio até o ponto de encontro mais distante - o Porto Sairú - a viagem durava cerca de 2h45 minutos só de ida, sem parar. O trecho mais curto - na Fazenda 7 Irmãos - durou cerca de 25 minutos de voadeira.

A logística também não era fácil: alguns barcos carregavam mais ou menos equipamentos (que iam desde cadeiras de dentista, remédios, vacinas, brinquedos e roupas) e em média, cerca de 4 integrantes da equipe, mais o piloteiro - todos com coletes salva-vidas e dentro das normas de segurança da navegação fluvial.
 

A região do Taquari é inóspita, com solo arenoso - o resultado do assoreamento do rio. / Imagem: Fábio Marchi

Durante esses percursos a viagem era sempre tensa - por uma série de razões: o rio nessa área é muito estreito, muitas vezes menor que a largura de uma rua (resultado do assoreamento); existem troncos gigantescos submersos na calha do rio, que podem provocar sérios acidentes caso o piloteiro não conheça a região e fique bem atento à navegação; e o medo constante da maior ameaça mortal do Pantanal: as temíveis abelhas africanas (na verdade uma espécie híbrida - que contaremos em outra matéria).

Quem imaginaria que daria para fazer um tratamento odontológico no meio do Pantanal? / Imagem: Fábio Marchi

Agora vamos aos números:

  • 281 pessoas receberam atendimento médico;
  • 350 pessoas foram atendidas pela enfermagem;
  • 150 pessoas receberam tratamento odontológico, onde foram realizados 368 procedimentos;
  • 250 escovas de dente foram entregues, mediante orientação de higiene bucal;
  • 82 pessoas foram vacinadas e receberam cerca de 163 doses de vacinas diversas - 48 pessoas estavam com as vacinas em dia;
  • 209 crianças foram pesadas para se enquadrarem no Bolsa-Família;
  • 61 cães foram vacinados;
  • 513 pessoas assistiram palestras sobre planejamento familiar;
  • 182 famílias foram atendidas pelo CRAS itinerante e pela Defesa Civil;
  • 37 diagnósticos de vulnerabilidade foram detectados;
  • 36 procedimentos especiais de saúde foram encaminhados;
  • 278 cobertores foram entregues;
  • 182 crianças participaram da atividade “Contação de Histórias”;
  • 182 crianças receberam doces e brinquedos;
  • 10 caixas de roupas para doação foram entregues;
Enquanto os adultos eram atendidos, as crianças eram entretidas em atividades lúdicas, como a "contação de histórias" - observe como elas prestavam atenção na narrativa. / Imagem: Fábio Marchi

De acordo com Elisama de Freitas Cabalhero (49), coordenadora do Programa, a ação foi um sucesso e correspondeu às expectativas: 

Me sinto realizada

Elisama Cabelhero, Coordenadora do Programa Social "Povo das Águas". / Imagem: Fábio Marchi

Elisama diz que sente orgulho por participar dessa experiência de vida, como ela mesmo define:

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