​Desde os anos 70, com a fama nacional da curandeira Cacilda de Paula Barbosa, a cidade de Corumbá tornou-se ponto de referência em práticas religiosas de matrizes africanas e afrodescendentes no Centro-oeste.

Sendo uma cidade fronteiriça, Corumbá atrai adeptos brasileiros e, também - em grande fluxo - bolivianos, que cruzam a fronteira para atendimentos nos chamados “terreiros”, locais de prática das religiões da Umbanda e do Candomblé.

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Mais de 70% da população local é afrodescendente, segundo o Instituto da Mulher Negra do Pantanal. Conforme o Mapa das religiões divulgado em 2000 pelo IBGE, entre municípios onde os habitantes autodeclaram-se afrodescendentes, aponta Corumbá à frente de Salvador, referência da cultura africana.

É difícil estimar a quantidade de terreiros na cidade de Corumbá, logo que nem todos possuem alvará de funcionamento. Conforme a Prefeitura de Corumbá, em levantamento de 2018, existem, informalmente, mais de 490 terreiros no município. Na Bolívia, a prática da Umbanda e do Candomblé coexiste com as práticas religiosas nativas, não havendo presença de terreiros, mas de curandeiros que atendem em seus próprios domicílios.

Uma pesquisa conduzida em 2015 e publicada na Revista Geopantanal, da UFMS, pelos pesquisadores Ana Claudia Marques Viegas e Sérgio Ricardo Oliveira Martins, destacou que, diariamente, bolivianos cruzam a fronteira para atendimentos espirituais, pelos motivos mais variados: alguns participam como pacientes para serem atendidos nos trabalhos aberto ao público; outros comparecem como fiéis, onde desenvolvem sua mediunidade e trabalham como filhos de santo; outros para trabalhos particulares dos mais variados propósitos; a maioria participa das festividades religiosas.

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Independente do motivo, a maior parte dos bolivianos possui residência fixa na Bolívia e realiza esse movimento pendular de idas e voltas quase que diariamente.

Além dos bolivianos, os terreiros de Corumbá atraem, também, uma grande leva de adeptos de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul, e do Rio de Janeiro, devido ao grande fluxo de cariocas que vêm transferidos por movimentação militar ao 6º Distrito Naval de Ladário.

Com tamanho fluxo cultural, é notório que as crenças gerem confluências, isto é, mesclem símbolos e práticas no chamado “sincretismo religioso”. Em Corumbá, isto é notório: terreiros com imagens de santos e anjos, misturando rezas católicas com tradições africanas. Daí vem a diferenciação entre Candomblé e Umbanda, sendo a primeira a prática “original” advinda da África pelos negros escravizados. Já a segunda, é o que foi citado: uma religião propriamente brasileira marcada pelo forte sincretismo entre catolicismo, espiritismo e religiões afrobrasileiras.

É interessante pontuar algumas diferenças, já que muitos confundem ambas as práticas. Historicamente, o Candomblé tem registros que remontam o século XVI, enquanto a Umbanda surgiu em 1908.

A crença do Candomblé se baseia nas leis da natureza: suas divindades são os Orixás, que teriam o papel de cuidar e equilibrar nossas energias. Nesta tradição, os Orixás são ancestrais divinos, deuses da natureza e representantes de um deus criador e único. Já os espíritos que se manifestam na terra são os Egun, almas que foram iniciadas ou não nesta religião. A assistência, dentro do Candomblé tradicional, é feito por meio da consulta com búzios. Os líderes são homens chamados babalorixá ou babalaô, e/ou mulheres chamadas de ialorixá ou ialaorixá.

Já a Umbanda segue as leis da natureza e do plano espiritual, além dos princípios da fraternidade e da caridade oriundos da prática do Espiritismo de Alan Kardec. Os umbandistas veem os orixás como espíritos ancestrais e a manifestação do deus único. Já os espíritos que aparecem durante os trabalhos são de pessoas que voltam para a terra para a prática da caridade. Na Umbanda, bem como nos Centros Espíritas, é feita a assistência por meio do passe, uma espécie de bênção e limpeza espiritual, que ocorre por meio da conversa com espíritos, que é feita pelo intermédio de um médium incorporado.

Embora as diferenciações aqui dispostas, raramente elas são levadas à cabo em Corumbá. Mesmo em terreiros que designam como Candomblé, é possível identificar práticas novas ou mestiças. O mesmo ocorre com a Umbanda, com adeptos que muitas vezes se identificam como “espíritas”.

Questões de preconceito religioso e racial marcam a prática da Umbanda e do Candomblé. Isso explica porque muitos adeptos neguem as práticas ou, na maioria dos casos, considerem-se adeptos do Espiritismo. O próprio encargo de um médium, ou seja, a pessoa detentora de dons que supostamente lhe permitem encargos sobrenaturais, é muitas vezes vista com maus olhos pela população em geral ou por membros da própria família do médium.

No caso do corumbaense Nathan de Moura Pires, o Bruxo Nathan, médium de 24 anos, o preconceito existe, mas não o impede de ser buscado por um considerável público semanalmente. Conforme Bruxo Nathan que atende na Avenida General Rondo, nº 2.250, mais de 30 pessoas o procuram semanalmente.

“As pessoas temem o desconhecido, mas quando estão em situação de necessidade, me buscam para trabalhos e orientações. Já atendi pessoas que falavam mal das minhas práticas por puro preconceito religioso, e que hoje são frequentadores do meu terreiro. Sou conhecido no Brasil todo, já atendi pessoas desde o Mato Grosso do Sul ao Amapá. Também sou procurado por muitos bolivianos, em especial os que vem de Santa Cruz e de La Paz”, alega com orgulho.

A história de Nathan é um lugar comum dentro da trajetória de muitos médiuns: seus dons começaram a se manifestar na infância através de desmaios e fortes dores de cabeça que não tinham diagnóstico médico.

Aos dez anos de idade, eu fui morar no bairro Maria Leite com minha mãe e minha irmã. Certo dia, lembro-me que era uma sexta-feira, comecei a passar muito mal, com desmaios e fortes dores de cabeça. Os médicos não sabiam dizer o que eu tinha, de modo que minha mãe decidiu por si só me levar em um terreiro onde havia um homem conhecido como Ney do Exú Marabô. Então, esta entidade me disse que eu deveria exercer meu dom, ou pelo contrário, eu poderia morrer.

Bruxo Nathan explica sua descoberta mediúnica.

Segundo Bruxo Nathan, ele foi iniciado na Umbanda com apenas 10 anos, abrindo sua própria tenda aos 19 anos de idade.

“Eu iniciei na Umbanda, com afirmação da minha cabeça, aos 10 anos de idade! Com 18 anos fiz a saída de santo para eu ter meu próprio terreiro, pois meus orixás já estavam bem afirmados. Aos 19 anos eu tive a minha tenda chamada “Tenda São Cipriano””.

Nathan hoje trabalha com outras práticas fora da Umbanda, que, segundo ele, foram repassadas por um mestre em Alta Magia de Belo Horizonte (MG).

Aos 20 anos eu viajei para conhecer outras práticas mágicas. Em Belo Horizonte, eu conheci um bruxo chamado que me ensinou mais de 300 tipos de magia. Hoje sou considerado o mais novo bruxo do Estado do Mato Grosso do Sul , com 24 anos de idade. Cotidianamente sou procurado para ajudar pessoas através dos meus dons e de meu conhecimento.

Bruxo Nathan

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