Em Campo Grande, o Projeto Padrinho atua como ponto de apoio, buscando orientar e auxiliar as comarcas que desejarem implantá-lo. / Imagem: TJMS

Com muitas lutas, conquistas e alegrias o Projeto Padrinho chega à maioridade. São 18 anos desde o lançamento no dia 26 de junho de 2000, pela então juíza da 1ª Vara da Infância e da Juventude da Capital, Maria Isabel de Matos Rocha. E durante todo esse tempo o Projeto Padrinho devolveu, para crianças e adolescentes, sonhos e a possibilidade para crescerem confiantes.
 
O projeto foi criado com objetivo de aproximar a sociedade da realidade de crianças, adolescentes e famílias carentes para sensibilizá-la a se mobilizar em favor desse grupo social, oportunizando o retorno ao convívio familiar e priorizando a manutenção dos vínculos estabelecidos.
 
A iniciativa pioneira de Campo Grande se estendeu para 28 comarcas do interior do Estado e está presente na maioria das capitais brasileiras. Em Campo Grande, o Projeto Padrinho atua como ponto de apoio, buscando orientar e auxiliar as comarcas que desejarem implantá-lo.
 
Com o auxílio de padrinhos e voluntários, que ajudam não só com diferentes formas de apadrinhamento, mas também com organização e divulgação do projeto, muitas crianças que haviam sido levadas para entidades de acolhimento, em decorrência da condição vivida em seus lares, estão de volta às suas famílias.
 
Para a juíza Katy Braun do Prado, titular da Vara da Infância, da Adolescência e do Idoso de Campo Grande e coordenadora da Infância e da Juventude de MS, tudo isso só foi possível graças aos padrinhos afetivos que doam afeto e tempo, proporcionando atividades de lazer, colaborando com necessidades educacionais, de saúde ou outra necessidade extra da criança.
 
“Embora o Estatuto da Criança e do Adolescente estabeleça que o prazo máximo de permanência de uma criança ou adolescente em instituição de acolhimento é de 18 meses, situações concretas impedem que muitos meninos e meninas convivam com seus familiares e nem sempre a adoção é possível. Além dos prejuízos emocionais decorrentes da institucionalização, as crianças e adolescentes ficam privados de referências familiares e necessitam de vários atendimentos para que sejam minimizados os danos decorrentes do abandono ou negligência que sofreram. Infelizmente a rede pública de proteção não disponibiliza certos tratamentos com a presteza necessária e aí a participação da sociedade civil se mostra tão importante. Padrinhos cuidam da saúde, auxiliam na aprendizagem, proporcionam atividades de lazer e culturais e, principalmente, tornam-se referência moral e afetiva para adolescentes que sabem que vão ficar em instituições de acolhimento até os 18 anos. É animador observar os progressos dos adolescentes que estão incluídos no programa de apadrinhamento”.
 
A psicóloga Rosa Pires Aquino, que participou da implantação e coordenação da proposta, lembra que a quantidade de crianças nas instituições de acolhimento foi o que motivou a criação do Projeto Padrinho. 
 
“O projeto surgiu de uma necessidade das crianças que permaneciam nas instituições por muito tempo, sem a alternativa de convívio com outras pessoas, além dos voluntários e funcionários. Isso para o crescimento e desenvolvimento emocional da criança é muito ruim. A criança precisa criar vínculos de afeto. Toda criança tem o direito a convivência familiar e comunitária”, explica.
 
Da equipe do projeto Padrinho de Campo Grande participam uma pedagoga, uma psicóloga, uma assistente social – todos coordenados pela juíza Katy Braun do Prado. A pedagoga Andrea Espíndola Alvarenga Cardoso, que coordena o projeto desde 2016, é categórica ao afirmar que, mesmo com as dificuldades diárias, é muito feliz com o Projeto Padrinho.
 
“É um trabalho muito gratificante, apesar das peculiaridades. Temos hoje 170 crianças e adolescentes acolhidos, mas esse número muda constantemente. A maior procura é para ser padrinho afetivo, porém o que mais precisamos são os financeiros porque muitas crianças chegam, com necessidade de atendimentos urgentes, e temos que atendê-las até que a rede de atendimento nos auxilie”, conta.
 
Atualmente, o Projeto Padrinho tem a participação de 26 padrinhos afetivos, 17 padrinhos com apoio financeiro e 53 prestadores de serviço.
 
Para quem ainda não conhece o trabalho realizado pela equipe do Projeto Padrinho, importante ressaltar que existem diferentes opções de apadrinhamento:
- padrinho afetivo: proporciona atenção e carinho à criança acolhida; 
- padrinho voluntário: faz algum tipo de trabalho esporádico nas entidades de acolhimento; 
- prestador de serviço: aquele que atende as instituições de acolhimento de acordo com sua especialidade profissional, de maneira gratuita ou com ajuda material. 
 
Histórias

Para ser um padrinho é necessário realizar o Curso Preparatório para Apadrinhamento, criado com objetivo de capacitar novos voluntários na modalidade de apadrinhamento afetivo. 
 
A participação é um dos pré-requisitos para o apadrinhamento afetivo e, dos 26 padrinhos afetivos que abraçaram a causa, muitos estão no projeto desde o início, como a advogada Maria Aparecida Pimentel, que até os dias atuais dedica um pouco do seu tempo familiar para os acolhidos.
 
E as histórias se acumulam e se entrelaçam em uma verdadeira rede de amor, como foi o caso de um enfermeiro que apadrinhou Victor Guilherme, um garotinho que faleceu há aproximadamente dois meses. 
 
Victor era de Aquidauana e veio para Campo Grande em uma situação muito crítica de saúde, tendo vivido em estado vegetativo por vários anos. “Esse enfermeiro se afeiçoou ao garoto e tinha autorização para levá-lo para casa nos finais de semana. E foi tão lindo o relacionamento entre ambos que, depois da morte do menino, o enfermeiro sepultou-o no mausoléu da família”, contou a juíza.
 
A médica Patrícia Almeida, 41 anos, é outra incentivadora da proposta. Ela fez o curso preparatório para apadrinhamento há dois anos. À época, surgiu a oportunidade de apadrinhar financeiramente uma criança de 13 anos, com necessidade de cuidados especiais e atendimento médico, fonoaudiológico e fisioterapêutico. Porém, o Serviço de Atendimento Domiciliar do Estado (SAD) forneceu todo o atendimento, não sendo necessário o apadrinhamento.
 
Recentemente, a equipe do Projeto Padrinho chamou Patrícia para confirmar seu interesse e aptidão com o projeto, quando a médica descobriu que existem crianças esperando por ela, o que a deixa muito feliz. 
 
“Quero me sentir útil ao ajudar uma criança que não tem estrutura familiar e se vê obrigada a morar em uma instituição de acolhimento. Como tenho uma referência de família muito boa dentro da minha casa, a minha intenção é proporcionar a uma criança o mesmo que eu tive. Apresentar a ela o que é ter uma família”, garante.
 
Ela conta ainda que, ao final do curso preparatório, os candidatos a padrinhos puderam conhecer algumas crianças que vivem nas instituições e essa oportunidade fez com que tivesse certeza de sua escolha. “São crianças que pude ver nos olhos que procuram segurança, amor e afeto. E tive mais certeza de que quero ajudar o outro e espero, ansiosamente, a oportunidade de apadrinhar”.
 
Entidades, empresas, escolas, cursos profissionalizantes e técnicos que desejarem proporcionar melhoria na qualidade de vida de crianças e adolescentes são bem-vindos para se unir ao Projeto Padrinho.

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