Filha de ex-escravos, a cuiabana Cacilda de Paula Barbosa, famosa nacionalmente pelas suas curas espirituais nos anos de 1970, despertou a mediunidade aos nove anos no terreiro de umbanda de pau-a-pique e sapé construído pelo pai, em Corumbá. Mas foi em 1964, segundo relatos na época, que seus poderes se espalharam com a primeira manifestação: fez um menino de 12 anos, do interior de São Paulo, paralítico, "largar as muletas e começar a andar”.

Seu dom de curar as pessoas desenganadas pelos médicos ou com deficiências físicos, embora muito questionado, ganhou as manchetes na imprensa do País e atraiu milhares de brasileiros e de outras nacionalidades. Corumbá foi literalmente invadida e os acampamentos que surgiram em volta da tenda da curandeira provocaram situações de calamidade, a ponto de a prefeitura intervir para controlar as precárias condições sanitárias e higiênicas.

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Quem passa hoje pelo cruzamento das ruas Luiz Feitosa e Duque de Caxias, no Bairro Nossa Senhora de Fátima, periferia da cidade, não imagina o tumulto gerado pelos “milagres” da mãe de santo, que atendia num casebre miserável e isolado. O movimento diário de centenas de ônibus e carros era intenso. Peregrinos de todo lugar e classes sociais disputavam na fila alguns minutos com aquela negra, suportando o calor e as longas viagens pelo improvável...

Corumbá se tornaria, depois, um dos principais centros de umbanda e candomblé do Brasil: são mais de 490 terreiros, segundo a prefeitura. Mais de 70% da população local é afrodescendente, informa o Instituto da Mulher Negra do Pantanal. Mapa das religiões divulgado em 2000 pelo IBGE, entre municípios onde os habitantes autodeclaram-se afrodescendentes, aponta Corumbá à frente de Salvador, referência da cultura africana.

Cercada de balaústre, a tenda, hoje de alvenaria, doada por um empresário, resiste naquela esquina famosa. Seu aspecto de abandono ainda atrai seguidores de uma mulher que se tornou um mito. O tempo não apagou a tinta com o nome do templo, batizado de Nossa Senhora da Conceição. No seu interior, o chão batido, as divisões de “damas” e “cavalheiros”, o altar, o cheiro de incenso e a cadeira de Cacilda e seu cajado remetem àqueles anos de 1970.

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Na tenda, que preserva uma grande varanda e oito banheiros, estão expostos manuscritos e fotos de pessoas recuperadas, bem como títulos recebidos pela espírita, um dos quais da embaixada do Japão. Na entrada, uma placa colocada pelo paraguaio Edison Insaurralde, de Pedro Juan Caballero (Paraguai), agradece a graça recebida. Ele teria entrado de muletas no terreiro, com problema nas articulações, e saído andando normalmente.

“Eu ainda era criança, mas me lembro de um homem que chegou numa cadeira de rodas. Ele não andava fazia 12 anos devido a fraqueza nos ossos. Foi curado e saiu andando. Eu vi com esses meus olhos”, conta Natalícia Gonçalves Barbosa, a Cotó, 59, um dos nove filhos. “Ela curava pessoas com câncer, surdas e cegas. Aqui tinha um quarto de muletas e aparelhos de surdez que as pessoas deixavam”, aponta para uma porta fechada, ao lado de um atabaque.

“Ela chupava aquela ferida e cuspia”

Cotó herdou a força espiritual de Cacilda e divide o terreiro com o primo João de Paula, hoje frequentado por pessoas que buscam benção e uma palavra de conforto. Benzedeira, Cotó atende ao lado da cadeira da mãe e incorpora o caboclo Pai Joaquim das Almas. Garante que também faz curas espirituais, mas não há relatos. A fé e a adoração em Cacilda, porém, parece inabalável. Seu túmulo, no cemitério municipal, é frequentemente visitado. Um mito?

Apesar da fama, os “milagres” da negra também suscitaram debates, questionamentos por estudiosos da parapsicologia e da mediunidade em telejornais e programas de auditório das principais emissoras de televisão, como a antiga TV Tupi. Jornais e revistas de circulação nacional exploraram o caso, tentando desvendar o fenômeno. O jornalista Hélio de Souza, que reside em Campo Grande, vivenciou aquela corrida compulsiva pela cura, em 1972.

Filha de Cacilda, Natalícia diz que herdou os poderes espirituais da mãe. (Foto: Silvio Andrade)

A convivência com o alemão Mengele

Olhos marejados, Cotó sustenta que a mãe tinha poderes sobrenaturais e viveu fazendo caridade. Ela se lembra de uma cena que nunca se esqueceu: “O guia já ia embora quando parou um táxi aqui na frente e desceu uma mulher de uns 30 anos, segurando um pano no peito. Ela tinha câncer e o local parecia podre, exalando mau cheiro. O preto-velho disse que ela ficaria boa logo. Depois de 45 dias, a moça retornou curada, sem cicatriz”.

Mãe Cacilda trabalhou de cozinheira para sustentar a numerosa família antes de se tornar médium, aos 30 anos. Morreu do coração, em 8 de agosto de 2000, aos 64 anos, pobre e esquecida. Morte “anunciada” pelo seu guia espiritual, Pai João de Minas. Cotó diz que todos na família têm um pouco da sua divindade. Ela, os irmãos, filhos e netos vivem ali, em comunidade. À noite, se ouve o batuque de umbanda em pelo menos três terreiros.

O relacionamento da curandeira com um alemão de sobrenome Mengele também gerou um caso polêmico, assunto proibido na família. Ainda adolescente, ela conviveu com esse homem misterioso e tiveram uma filha, hoje com 67 anos. Seria Josef Mengele, o “Anjo da Morte”, que vivia na clandestinidade, na época, entre São Paulo e as fronteiras com a Bolívia e Paraguai? O nazista desapareceu e tempos depois foi encontrado morto no interior paulista, em 1979.

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