Na última semana, os brasileiros assistiram as chamas consumirem o Museu Nacional no Rio de Janeiro. O trágico incidente logrou-nos um momento de reflexão acerca da perda da memória histórica e a desvalorização dos patrimônios no Brasil. A questão da desvalorização vai além da preocupação política - ela também é cultural, e deve ser compreendida no âmago das relações sociais de nosso país tão pouco interessado em sua rica cultura histórica. Não devemos esperar para valorizarmos nossos patrimônios. 

Localizada às margens do Rio Paraguai, na divisa com a Bolívia, a cidade de Corumbá é um exemplo de riqueza histórica. Esta riqueza é bem simbolizada dentro do Museu de História do Pantanal, localizado na Rua Manuel Cavassa, no Porto Geral, com entrada gratuita nas tardes das terças aos sábados. 

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O museu de História do Pantanal, o Muhpan, foi inaugurado em 12 de agosto de 2008 após a complexa recuperação e revitalização do prédio que o abriga, o histórico casario Wanderley & Baís. Sendo o maior prédio do conjunto do Casario do Porto, o W&B foi importante centro comercial de Corumbá, passando por uma exportadora (Firmo de Mattos), agência bancária (foi a 14ª do Banco do Brasil), até ser uma das sedes da Noroeste Brasil, ferrovia do famoso Trem do Pantanal. 

Quem entra no MUHPAN se emociona: a recuperação do prédio é realmente fantástica. Após o término da NOB, o W&b ficou abandonando e posteriormente ocupado por diversas famílias tornando-se uma espécie de cortiço do porto. Chegou de ser uma sorveteria e até uma lan house, tudo de modo informal. Poucos poderiam imaginar que aquele prédio velho e bastante encardido guardava pisos com azulejos hidráulicos, escadas ornamentadas vindas da Inglaterra e um grandioso mapa, escondido sob a tinta, desenhado em 1942 para ilustrar o trecho ferroviário de Bauru à Santa Cruz. Tudo isto permaneceu sob forte deterioração durante anos - e ainda permaneceria se não fosse o Projeto de Preservação do Patrimônio Histórico desenvolvido em Corumbá na década de 90 e em vigor até os dias atuais. 

 

A Casa Wanderley & Baís, uma das casas comerciais mais ricas da cidade no início do século XX, antes da restauração.

A primeira coordenação nos levantamentos cadastrais, métricos e arquitetônicos da casa ocorreu de novembro de 1989 à março de 1991. Foi nesse primeiro levantamento que o mapa da Comissão Mista Ferroviária Brasil-Bolívia foi descoberto sob a camada de tinta e que viria uma década mais tarde ser totalmente restaurado pela arquiteta Perla Larsen. No mesmo ano, o ante-projeto da restauração do prédio foi elaborado sob a direção do arquiteto José Roberto Gallo em convênio com a gestão de Fadah Gatass e a fundação de cultura do Estado. Infelizmente, a restauração inicial foi desconfigurada anos mais tarde, vindo apenas a tornar a dar brilho ao espaço com a criação do Muhpan em 2006. 
 

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Mapa original da Comissão Mista Ferroviária Brasil-Bolívia pintado em 1944 no prédio W&B, hoje Muhpan.

O Muhpan pretende contar a História de aproximadamente oito mil e duzentos anos da ocupação humana no Pantanal. Conforme discurso oficial, a Instituição, o Muhpan retrata a identidade pantaneira e funciona como um organismo vivo da história. Por meio do aparato montado para o funcionamento desse espaço, os temas são apresentados com base na ludicidade e interação. O circuito expositivo é definido pelo próprio Museu como não linear. É composto por uma exposição principal, dividida em vinte e dois temas. No térreo, o hall principal possui dois ambientes, o primeiro é destinado à recepção ao público, e o segundo abriga diferentes exposições de curta duração.

Ao atravessar as portas do Museu, antes de passar pelas salas do hall principal, no lado direito localiza-se a primeira sala expositiva: (1) Imersão; em seguida: (2) Dez Pantanais. No segundo piso, encontram-se as exposições: (3) Arqueologia; (4) Etnologia; (5) Encontro entre Civilizações; (6) Conquista Espanhola; (7) Missões; (8) Conquista Portuguesa; (9) Monções; (10) Tratados; (11) Cidades e Fortes; (12) Pintura Corporal Bororo; (13) Trem do Pantanal.

Sala dos Dez Pantanais

No terceiro piso estão situadas as exposições: (14) Primeiras Fazendas; (15) Guerra contra o Paraguai; (16) Pioneiros; (17) Comissão Rondon; (18) Porto de Corumbá; (19) Imigração; (20) Fazendas e Pecuária; (21) Ladrilhos Hidráulicos; e (22) Olhares sobre o Pantanal. Recentemente foi inaugurado no terceiro piso uma sala dedicada a Memória do Negro no Pantanal chamada "Braços Cativos no Espaço Urbano e Rural de Corumbá" (23).

Logo após o fim do circuito expositivo há uma sala, localizada no 2º andar, destinada ao exercício de criação e reflexão pós-visita. Neste espaço existem diversos materiais resultantes de outras atividades e oficinas. O Museu também possui um auditório - local em que também podem ocorrer as museaulas - utilizado para a exibição de filmes (único recurso da população para este tipo de atividade cultural, pois a cidade não possui cinema), palestras, cursos e seminários destinados às escolas, comunidade, pesquisadores e turistas.

A idealização do Museu de História do Pantanal conta com generosas pitadas de ousadia, principalmente, pela aspiração em torná-lo um representante da história regional do Pantanal, um território de diferentes culturas e diversas histórias. O Museu, sem dúvida, transformou-se num importante vetor social, especialmente, para os cidadãos corumbaenses, pois permitiu que a sociedade se (re)aproximasse e atribuísse novos sentidos às tradições e à cultura da região do Pantanal. 

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