Opinião

A rotatória de outro Mundo

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No planeta, pelo menos 3 mil pessoas morrem diariamente em ocorrências no trânsito - segundo dados das Organizações das Nações Unidas (ONU). No Brasil, o cenário também é preocupante: O país aparece em quinto lugar no ranking mundial de mortes no trânsito. Segundo o Ministério da Saúde, em 2015, foram registrados 37.306 óbitos e 204 mil pessoas ficaram feridas.

Uma boa parcela deste indicador é resultado de práticas ruins de motoristas e pedestres, em especial a cultura do “não-respeitar” a sinalização do trânsito e todos os acessórios que contribuem para o fluxo do mesmo, como semáforos e rotatórias.

Eu me recordo de quando Corumbá começou a implementar suas primeiras rotatórias, na administração de Ricardo Candia (1992-1996). Ricardo era engenheiro e provavelmente observou que o fluxo no trânsito da Cidade Branca estava aumentando consideravelmente e que novas medidas deveriam ser adotadas para controlar esse novo ritmo que a cidade estava vivenciando.

As primeiras rotatórias eram imensas: no cruzamento da Major Gama com a América eu me lembro que havia uma rotatória com uma mureta alta de concreto e o seu interior era preenchido com grama e algumas plantas. Até mesmo uma “pirâmide” luminosa foi construída em seu interior, preenchida com publicidade.

Mas toda novidade tem seu preço: na época utilizavam-se blocos imensos de concreto que apesar de devidamente sinalizados eram de segurança duvidosa - pois sempre provocavam acidentes. E um desses blocos acabou levando a vida do meu amigo Rafael, que bateu com o pneu dianteiro de sua motocicleta e acabou sofrendo um acidente fatal. Na época, o uso de capacetes não era obrigatório - e ele foi a óbito instantaneamente. Fizeram protestos, danificaram e quebraram a rotatória - mas ela continuou lá.

Com o tempo, a altura e os “acessórios” das rotatórias foram diminuindo pois a experiência ao longo do tempo acabou provando que traziam mais problemas que benefícios: a rotatória muito alta prejudicava a visão dos motoristas - ainda mais se estivesse arborizada. Sendo assim, entrar na rotatória de alguns cruzamentos era uma verdadeira roleta-russa. Ademais as ruas de Corumbá são antigas e não foram planejadas para esse tipo de paisagismo público: dezenas de caminhões-pipa de água pagos pelo s contribuintes eram necessários - semanalmente - para manter as plantas e o gramado das rotatórias com vida e acreditem, quando esses caminhões faziam o seu trabalho - o risco de acidentes nas rotatórias aumentava consideravelmente, pois eles tinham que parar ao lado das mesmas.

Assim, confesso que fico perplexo quando vejo toda essa polêmica por conta de um novo modelo de rotatória que foi implantado na velha e boa Cidade Branca - em especial à da rotatória que viralizou nas redes sociais na região, a do cruzamento da Rua Colombo com a Luiz Feitosa. Pior ainda é quando compararam a mesma rotatória - localizada em um cruzamento pequeno até mesmo para os padrões das ruas largas de Corumbá - com a rotatória da Avenida Mato Grosso que dá acesso aos Parque dos Poderes, em Campo Grande, recém inaugurada. Ali brincando, deve ter uns 150 metros de raio e com certeza, custou centenas de milhares de reais - uma comparação inveromíssl e simplória.

A curiosidade é que nesse mesmo cruzamento acidentei-me em 2003, chocando meu velho e bom Fusca (R.I.P.) com uma ambulância (que por sorte não tinha nenhum paciente dentro). Tive muita sorte, saí com ferimentos leves e alguns arranhões. Eu tenho uma teoria que existem alguns cruzamentos que são verdadeiras fábricas de acidentes - e ali é um deles (4 pessoas já morreram nesse cruzamento, ao que eu saiba). Sendo assim, fiquei feliz por finalmente terem colocado uma rotatória naquele local e espero sinceramente que a taxa de acidentes diminua consideravelmente.

Pela lógica, quanto mais evoluído e educado é um povo, menor é a quantidade de leis, indicativos, informações e obstáculos para “forçar” a população a obedecer uma conduta. E quanto maior e mais complexo o acessório, é mais dinheiro que sai do caixa do poder público e que poderia estar sendo aplicado em outras coisas - como campanhas de treinamento e conscientização no trânsito.

Vou dar para vocês dois exemplos que vivenciei:

Em 2010 eu fiz uma viagem ao Rio Grande do Sul e conheci as cidades de Gramado e Canela, cidades turísticas, limpas e civilizadíssimas. Primeira observação: semáforos são raros nessas duas cidades - você coloca o pé na rua e os carros param, parece mágica! A foto que ilustra este artigo é de lá. Percebam que NÃO EXISTEM semáforos e o pedestre é respeitado em sua faixa. Educação, amigos: quanto mais educação no trânsito, menor é a quantidade de sinalização necessária para orientação.

Outro exemplo: no Ano da Graça de Dois Mil e Doze eu morava em Rondonópolis, uma cidade de 220.000 habitantes e com um trânsito dezenas de vezes mais caótico que o de Corumbá - e acreditem, lá já era comum rotatórias desse tipo. Muitos cruzamentos eram orientados apenas com olhos-de-gato e pintura no asfalto.

Corumbá já usa rotatórias há cerca de 25 anos. Há vinte e cinco anos elas fazem parte da nossa vida, regulando o trânsito e evitando acidentes.

Estamos preparados para esse próximo nível ou temos que regredir às muretas de contenção? Qual é o nível da nossa educação no trânsito?

Eu até imagino que, em uma época onde estamos cansados de ver tanto desperdício de dinheiro público, roubalheira, corrupção e coisas afins - ver uma sinalização de trânsito mais simples sendo implantada cause estranheza, indignação e boas piadas.

Porém como eleitor e contribuinte pagante de impostos, fico satisfeito quando vejo que o poder público encontra soluções eficientes e de baixo custo para fazer o mesmo trabalho que outras soluções mais caras, complexas e que exigem mais manutenção. Afinal de contas, a função é a MESMA: forçar o carro a dar a volta em torno de um obstáculo, se quiser dar um retorno ou fazer uma conversão. Fazer a mesma coisa gastando menos é beeeeemmm diferente de desperdiçar dinheiro público.

Em tempos onde boa parte da administração pública brasileira não se importa com os gastos públicos e com os nossos bolsos, um nova rotatória mais simples e sem gastos exorbitantes parece coisa de outro Mundo, mesmo.

Merece até a visita de um disco voador, né?

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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