Editorial

Dia do Jornalista: produzir informação imparcial de qualidade ainda é um desafio diário

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Tenho 44 anos de idade. Há menos de 3 anos, criei um jornal e tornei-me jornalista. Ainda que não tenha formação na área (estudei Administração e sou Bacharel em Direito), sempre me considerei um cronista do meu tempo, registrando quase tudo o que acontecia à minha volta. Morei quase toda a minha vida em uma cidade interiorana, localizada no coração do Pantanal Sul-Matogrossense - e minha família nunca teve condições para pagar meus estudos fora da cidade, que invariavelmente seriam Publicidade ou Jornalismo, minhas paixões.

Ter um jornal sempre foi um sonho e muitos anos depois - já “burro velho” - resolvi realizá-lo.

Como meu trabalho sempre foi voltado à comunicação (da época em que tinha que fotografar e fotolitar peças publicitárias), a transição para o mundo jornalístico não foi difícil.

Também programo e desenvolvo layouts para páginas web, sendo assim além de realizar o sonho de ter meu próprio jornal, eu também CRIEI cada linha de código que faz o MS Diário estar no ar, desde seu primeiro dia. Tenho o raro prazer de não apenas trabalhar no que gosto, mas também em ter a capacidade de CRIAR a minha PRÓPRIA ferramenta de trabalho, sem depender de nenhum outro profissional.

A profissão de Jornalista é fascinante: através das nossas matérias - sejam elas na forma de reportagens, especiais ou artigos - informamos a população sobre o que está acontecendo à sua volta, mostramos o que está errado e o que está certo, o que precisa melhorar e o que melhorou através de imagens, palavras, áudio, vídeo, charges e tweets de 140 caracteres.

A profissão de Jornalista é glamourosa: somos “os caras” da informação (e de certa forma temos acesso à muita informação privilegiada - dada à confiança que conquistamos perante às nossas fontes).

Dar aquele “furo” de reportagem é o nosso tesão: a adrenalina corre solta ao digitar a matéria que “bombará” os acessos do site e que formará a opinião de milhares de leitores em poucos minutos.

Mas tenho que confessar que a profissão de Jornalista é ingrata, por muitas vezes.

Por muitas vezes somos acusados, assediados, intimidados, esculachados, agredidos e até ameaçados de morte (ou mortos) apenas porque alguém não concordou que aquela informação deveria (ou poderia) ter sido divulgada.

Um colega de profissão, o jornalista Erik Silva (Folha MS) sabe muito bem o que é isso. Ele foi processado pessoalmente por revelar o salário de um servidor público, apenas porque achou estranho o super-salário de um funcionário da Câmara Municipal de Corumbá que ultrapassava os 40 mil reais na folha de pagamento e contrariando toda a legislação tributária existente. E isso porque ele NEM DIVULGOU o nome do servidor - algo absurdo, se levarmos em consideração a Lei da Transparência.

Erik hoje é case de palestras e debates sobre a liberdade de expressão e já foi pauta da Reuters, Associated Press e outras importantes agências de notícias internacionais. Seu processo ainda não terminou, seu nome está manchado na Justiça - e o funcionário da Câmara em questão continua trabalhando e o vereador que autorizou o super-salário foi reeleito pelo povo. Se não fosse assim não seria o Brasil, não é mesmo?

Essa intimidação de jornalistas - cujo trabalho se baseia no DEVER de informar - tem que parar.

Eu mesmo, tenho um case sobre isso: meu jornal foi processado apenas porque noticiamos a apreensão do veículo pessoal de um candidato - com dinheiro - em plena campanha política. Curiosamente, por razões que a própria razão desconhece, o delegado “desmentiu” a notícia e fomos processados - ainda que o carro tivesse sido apreendido (por que foi apreendido, se estava tudo em ordem?) juntamente com uma quantia em dinheiro que estava em posse do motorista do tal político (que furou uma barreira policial, sendo perseguido pela viatura por vários quilômetros). Também curiosamente após as eleições, o político em questão foi derrotado nas urnas, o tal delegado foi transferido de cidade e ninguém mais falou sobre o assunto. Mas continuamos sendo processados.

Pior ainda é quando MATAM jornalistas. Mato Grosso do Sul está cheio de casos escabrosos, quando o assunto é tentar calar a voz de jornalistas. Alguns colegas produzem DOSSIÊS, caso alguma coisa aconteça com eles - dado ao perigo que a nossa profissão proporciona, por muitas vezes.

Eu mesmo, já fiz isso: já gravei em vídeo o meu dossiê pessoal - é o risco de quem trabalha com jornalismo investigativo e de quem tem coragem de denunciar - e tenham certeza de que não vou facilitar a impunidade de um provável algoz.

Ser jornalista é ir de encontro aos interesses de poderosos todos os dias. Sempre haverá alguém com poder suficiente para “fechar as portas” para você, porque em algum momento a informação que você publicou irá desagradar esse alguém.

E ainda tem a cobrança do seu público, que cobram sempre sua imparcialidade nos fatos. Um público que infelizmente, não está disposto a pagar R$ 1 real por dia para ter informação imparcial E de qualidade.

Todos querem informação, mas quase ninguém quer pagar por ela. Ninguém pensa que apenas a produção de UMA matéria envolve deslocamento, combustível, equipamento de fotografia e filmagem caro, pagamento de profissionais, aluguel, energia, água, internet, ligações telefônicas, seguro, plano de saúde, hospedagem e manutenção do site - sem contar os custos dos colegas que produzem jornal impresso.

Sim, nós pagamos por tudo isso - e ainda tem que sobrar dinheiro para a nossa vida pessoal. Temos uma vida, também.

Antes de ser jornalista, eu me perguntava quais eram as razões para um jornal fantástico como a “GAZETA MERCANTIL” fechar ou ainda, o JORNAL DO BRASIL ter acabado com sua versão impressa.

Precisou que eu me tornasse jornalista, para sentir isso na carne e descobrisse a verdade dos fatos: o povo em geral, não se importa com os custos da produção de notícias. Querem e cobram imparcialidade e veracidade - mas não querem pagar por isso.

Por isso e apenas por isso, quase todos os veículos de comunicação do país possuem tendências políticas - pois os maiores interessados em SER MÍDIA, são eles, os políticos. Sem eles, dificilmente a conta fecha no final do mês - é a mais pura realidade.

Tirando as tendências políticas naturais dos proprietários dos veículos de comunicação, essa é uma das razões pelas quais você verá jornais com uma tendência X e outros, com uma tendência Y. Alguém tem que pagar a conta que o leitor não quer pagar.

Teste rápido: Você, que está lendo este texto - quantos jornais você assina? Quantas revistas você compra? Alguma vez já clicou nos banners de um site para ajudar na sua renda mensal? Pagaria por uma assinatura de um jornal online?

Daí a importância vital da existência de anunciantes - para manter a operacionalidade de um veículo de comunicação.

O pior é que todos reconhecem a importância de um jornal: hoje, com o advento das redes sociais a informação verdadeira (e boatos) se espalham como rastilhos de pólvora - mas só um jornal possui a credibilidade necessária para afirmar ou negar a existência de um fato.

No Dia do Jornalista, esse texto foi mais um desabafo, do que chorumelas: não me arrependo nem um segundo de abraçar essa profissão que sempre sonhei em exercer e que faço hoje, com muito prazer. Afinal de contas, ser Jornalista é a grande realização da minha vida.

Eu só quero que você leitor, tenha consciência que nossa profissão beira o sacerdócio - dado os sacrifícios que muitas vezes temos que fazer em nossa própria vida pessoal, para cumprir diariamente com a nossa missão:

Levar a informação até você - mesmo que você não nos remunere para isso - todos os dias.

Fábio Marchi
Jornalista MTB 1688/MS

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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