Editorial

Fumaça e impostos

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Quem mora no Pantanal sabe muito bem que vive uma existência repleta de extremos: quando é calor, as temperaturas atingem fácil a casa dos 40ºC e caem drasticamente para 5ºC quando é época do frio “duro”. Quando chove, é um dilúvio - e com as chuvas, o pantaneiro recebe de brinde os mosquitos - algo que ele convive desde que colonizou esse rincão de terra molhada há mais de dois séculos e meio e que hoje é a grande preocupação nacional. Isso sim é Pantanal Extremo - qualquer uso dessas palavras que não seja para representar a vida do pantaneiro no Pantanal é pura firula.

Mas se tem uma coisa que prejudica por demais o pantaneiro, são as queimadas. Houve uma época em que elas eram utilizadas para o manejo da terra, mas com as mudanças climáticas o clima pantaneiro está cada vez mais seco, tornado a maior planície alagável do planeta cada vez mais vulnerável.

As queimadas no pantanal trazem prejuízos de bilhões de reais, todos os anos - um prejuízo quase sempre não-computável e divulgado para a população. Animais terrestres, vegetação e até mesmo peixes morrem por conta das queimadas (aumenta a quantidade de gás carbônico na água por conta das cinzas e vegetação carbonizada, matando os peixes por envenenamento gasoso). Espécimes em extinção ou em risco de extinção como a onça-pintada perdem grandes área de caça, ninhais são destruídos, sítios arqueológicos são eliminados do mapa e o homem pantaneiro tem sua saúde afetada de forma drástica, por conta da fumaça que irrita olhos, garganta, pulmões e desencadeia alergias - provocando um aumento substancial na busca do serviço público de saúde.

O pior é que sabemos que todos os anos isso acontece, no Pantanal. Todos os anos existem queimadas no Pantanal, tão certo quanto é a morte e os impostos em nossa vida.

E falando em impostos, é nesse momento que temos uma das maiores demonstrações de incompetência da aplicação do nosso suado dinheirinho: até hoje, não desenvolvemos um sistema eficiente de combate à incêndios no Pantanal.

Dinheiro? Quanto o IBAMA arrecadou em multas ambientais na região, desde que foi criado? Quanto o Governo Estadual arrecadou em licenças de pesca desde que o Estado foi criado, em 1976? Onde está sendo aplicado esse dinheiro?

No combate à incêndios é que esse montante não está aplicado: para se ter uma idéia da irresponsabilidade do poder público perante o assunto, o contrato do IBAMA com a Brigada de Combate aos Incêndios Florestais (PrevFogo) só vai de Junho a Dezembro. Azar o nosso, se essa queimada acontecer fora desse período - como vimos há poucos dias atrás.

Somos apenas pagadores de impostos e nada mais.

O jeito é tragar a fumaça, imaginar que é um charuto cubano e relaxar.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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