Opinião

O Carijó e o “Homem do Chapéu”

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No início dos anos 90 na não tão pacata cidade de Corumbá iniciou-se uma verdadeira “guerra” do entretenimento noturno naquela localidade - quando os pagodes ainda não tinham o apelo popular que têm hoje e pelos menos cinco danceterias disputavam entre si a preferência da moçada na época: Boate 1054 (antes de virar Studium 1054), BlackOut, Saloon Country Club, Danceteria e Disco Funk (esta última já em franca decadência, com reaberturas e encerramentos alternando-se por várias vezes, até fechar de vez).

De todas essas danceterias, o “pau torava” mesmo entre a Boate 1054 - que era uma continuidade do espaço “La Barranca” desde os anos 70 - e a BlackOut, que era um empreendimento recente na região tocado por um empresário do interior de São Paulo.

A guerra era tanta entre essas danceterias, que muito tempo depois - em conversa com alguns DJs que tocavam na época - me confessaram que esse empresário comprava talões inteiros de ingressos da Boate 1054 e depois distribuía gratuitamente para gangues rivais, para “sujar” o ambiente da Boate e assim garantir um fluxo maior de gente “da alta”, que consome mais e mantém um fluxo de caixa mais rentável, em sua danceteria. Golpe baixo, mas eficaz.

Porém, quando o ambiente da BlacKOut começou a ficar pesado, com brigas frequentes e confrontos armados na saída, esse empresário criou um novo espaço chamado Fantastic (mais tarde, Casablanca), na entrada da Popular Nova - a parte alta da cidade que estava em franco crescimento e que concentrava boa parte da população de baixa renda da cidade naquela época.

Segundo a estratégia do empresário, a intenção era manter o “povão” se divertindo ali mesmo - na parte alta - e assim, deixar a BlackOut “livre” para a high society corumbaense.

Para que suas intenções dessem certo, ele criou vários atrativos para segurar a galera por lá: compre-uma-bebida-leve-duas, mulher-não-paga, etc.

Mas o corumbaense não é um bicho fácil de se mexer CAZIDÉIA, e a danceteria Fantastic estava chegando ao seu fim - e uma visível FALÊNCIA era vislumbrada pelo dito empresário.

Então ele teve uma idéia literalmente, diabólica: contratou um ator na capital para executar uma performance de dança ESPECIAL na Fantastic: loiro, alto, olhos azuis, vestido todo de branco e usando um chapéu Panamá - destacando-se assim completamente, da bugrada dançante - ele “seduzia” várias meninas ao mesmo tempo na pista de dança (também cúmplices da encenação) que entregavam-se à ele.

Todos ficaram curiosos para saber quem era o tal rapaz. Parte um do plano completada com sucesso - agora faltava o GRAN FINALE, que veio de forma espetacular:

O dançarino de chapéu foi ao banheiro e lá, em meio a outros cúmplices do projeto tirou o chapéu, revelando pequenos CHIFRES implantados em sua cabeça. Seus parceiros começaram a gritar como o combinado e saíram correndo do banheiro espalhando o pânico pela danceteria - que obviamente não precisamos nem dizer o que aconteceu: histeria coletiva, gritaria, choro, emoção.

O ator é óbvio, sumiu como o capeta em uma nuvem de enxofre e nunca mais apareceu em Corumbá - mas estava lançado ali um dos maiores engodos de marketing que a Cidade Branca já vivenciou em sua história.

No final de semana seguinte e nos subsequentes, a danceteria Fantastic atingia sua lotação máxima, gente ficava de fora esperando espaço para poder entrar. As promoções acabaram e nunca a danceteria faturou tanto.

Todos queriam ver o “Homem do Chapéu”, o DEABO dançarino em forma de gente que uma noite tinha dado com as caras por ali. De vez em quando alguém gritava que tinha visto o cara em um canto da danceteria e a histeria se formava, novamente. O empresário ria à toa.

Porém (sempre tem um porém) pouco tempo depois - durante uma briga - mataram um rapaz. Tal como o ditado “o feitiço virou contra o feiticeiro”, veio o contra-ataque do marketing negativo:

“O DEABO amaldiçoou o lugar e agora quer sangue.”

Amaldiçoada ou não, em poucos meses a Fantastic fechou - entrando em falência - a BlackOut “baixou o nível” de forma irreversível e o empresário foi embora da cidade, repleto de dívidas empresariais e trabalhistas. Mas a LENDA do “Homem de Chapéu” durou até hoje - pelo menos entre os amigos da minha geração.

Me lembrei dessa lenda urbana corumbaense porque ontem eu identifiquei - durante o jogo do Corumbaense - um “Homem do Chapéu”. Não tem os chifres postiços por baixo da sua cobertura, com certeza - mas é como se tivesse, pois é tão diabólico quanto. De qualquer forma, é um embuste, um engodo, uma enganação tanto quanto o DEABO da Fantastic: puro marketing barato.

Ele estava lá, FINGINDO que torcia pelo Carijó apenas para fazer uma média com a torcida mais apaixonada por futebol de Mato Grosso do Sul.

Tenho absoluta certeza que para algumas pessoas nada seria melhor do que se o Carijó perdesse e se frustrasse - afinal de contas, se o Carijó for campeão em 2017 (e vai) tem gente que vai ficar com A FACA E O QUEIJO na mão em 2018, e é claro - também tem gente que DETESTARIA se isso acontecesse.

Ciumento, vaidoso e soberbo (tal como o DEABO) - este HOMEM DO CHAPÉU é um egoísta que só pensa na sua imagem e no seu “legado”. É o tipo de gente que “se não for comigo, não será com ninguém”.

Então meus amiguinhos não se enganem com o HOMEM DO CHAPÉU - pois de “boas intenções”, o inferno está cheio - e o mundo político, também.

E para encerrar falando em Futebol, quando um time vence não é sorte: é TRABALHO DURO e INVESTIMENTO. Quem trabalha e investe com seriedade, têm o merecido feedback. É apenas a lei do retorno, em ação.

Simples assim.

 

Parabéns, Carijó!

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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