Opinião

O primeiro scout é para sempre ! Lembrarei daqui a 31 anos

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O domingo do dia 7 de maio de 2017 será uma data muito especial para Corumbaense Futebol Clube, sua torcida, e para mim, aficionado por futebol, que me aplico em uma jornada para o trabalho como observador técnico desse esporte. Atributo que nos dias atuais ganhou um novo nome, graças ao uso de tecnologias para avaliar o jogo. Após capacitação feita neste ano, me tornei “analista de desempenho” e vivi uma reciclagem muito grande naquilo que entendia sobre partidas, sobre performance esportiva e sobre scout - dados estatísticos de comparação entre equipes ou evolução de atletas em uma determinada circunstância. A volta da decisão do Campeonato Sul-Matogrossense foi à oficina que escolhi para o meu primeiro relatório de um jogo inteiro, o que me permitiu ver o espetáculo sobre outro ângulo, que compartilho neste texto, graças à licença de um amigo e incentivador desse desafio que me lancei, o jornalista Fábio Marchi. É por convite dele, que o MS Diário cede espaço para a publicação de algumas considerações desse título histórico.

Pelo desempenho nas finais, o Corumbaense mereceu o título, foi melhor, mais efetivo, mais organizado, atuou com mais jogadores que mostraram polivalência e ainda emprestou ao campeonato uma marca de emoção pelo esporte, algo que só existiu por conta de uma torcida que do lado de fora das linhas provou que era um destaque à parte. E se tem outro fator que valorizou ainda mais a conquista foi a coragem da equipe adversária, que escolheu incessantemente “propor jogo”, uma situação que poderia ter lhe dado o título, se a efetividade no último terço de campo fosse maior.

Porém, a essa altura do texto há já esteja falando, ‘em voz alta’, que eu talvez seja louco, e que avalio essa superioridade de forma aleatória, pois não seria possível cravar tal ideia vendo como foram os dois jogos das finais. Se a análise de desempenho em futebol consistisse apenas em scout, eu daria total razão a quem me questione nesse viés, já que houve números discrepantes de superioridade para o Novo, que por sinal tem tudo a ver com a estratégia de enfrentamento do time de Campo Grande.

Como a própria descrição da atividade indica, análise de desempenho corresponde a uma interpretação do jogo, quanto ao funcionamento de uma equipe ou trabalho específico de um atleta. De acordo com a concepção desse ofício, o olhar sobre o cenário é sistêmico, não aplicado apenas a um dado qualitativo, ou isoladamente um dado quantitativo da avaliação. Apenas com números, ou cruzamento de informações numéricas de uma análise não há como se medir desempenho, assim como, na minha modesta opinião é extremamente arriscado “opinar bem” sobre o jogo ignorando os números. Aliar números e a observação de uma partida, para que o quantitativo tenha um sentido, é o desafio do analista de desempenho.

Voltando ao acompanhamento da final, conto que fiz um relatório do primeiro tempo do jogo de ida, realizado no Morenão, que mostrou tendências de modelo de jogo das duas equipes, repetidas depois no restante daquela partida, e na volta, no Arthur Marinho. Como analista, sou obrigado a ver jogos com um alcance que vai além dos resultados, uma vez que antes deles vem o que se chama de performance, calcada da diretriz do desempenho. Em português claro, a relação é “modelo de jogo que propõe um desempenho, que na prática irá oferecer um grau de performance, conforma a eficácia do atendimento da ideia de ação, resumida no final, “sumariamente”, em um resultado. O Corumbaense não atingiu o resultado de campeão por acaso, e, se foi superior, tal fato ocorreu pelo desempenho e consolidação de uma estratégia de jogo.

O time de Douglas Ricardo, pelo que vi, optou pelo contra-ataque como arma mortal, pautado em poucas oportunidades de chute a gol, que seriam criadas em transições ofensivas rápidas, poucos toques e uma variação com roubada de bola que com menos de “oito segundos” chegaria a rede adversária. Até aí ótimo, preciso e moderno, já que prerroga intercepção no campo do adversário, provavelmente no terço médio do campo. O mesmo raio caiu duas vezes e se chamou no caso “Willian”, que foi implacável na finalização. O que questiono, no entanto é a opção por tentar essa jogada sucessivas vezes, com extrema dificuldade, especialmente no primeiro jogo, em virtude da recomposição defensiva.

Estruturado no 4-1-3-2, com apenas um volante (de vocação) na segunda linha, a recomposição ofensiva forçou nos dois jogos os atletas do Corumbaense a terem uma dedicação descomunal na transição defensiva. Houve momentos no primeiro jogo que para defender o time ficou com um 5-4-1, ou um 4-5-1, comportamento tático para a recuperação de bola que persistiu depois na partida do Arthur Marinho. A receita, um tanto ortodoxa, não é aconselhável se o time fica encolhido demais nos dois primeiros terços do campo, como ocorreu e poderia ter complicado as coisas se não fossem os gols de Willian e um carregador de piano: o meio-campo de contenção, Cléber.

Faltou compreensão aos jogadores de que com uma compactação defensiva tão próxima do próprio gol ficaria complicado sair em velocidade, e usando passes verticais, pois o mais interessante à estratégia de ataque ficaria por conta de uma pressão mais adiantada na marcação dos volantes do Novo. Não ter a maior parcela de posse de bola, como aconteceu com o Corumbaense não é demérito no futebol de hoje, visto que times como a Juventus, o Chelsea, o Corinthians, o Manchester United, de treinadores consagrados, optam por esse risco atualmente em muitos dos seus jogos. Toda estratégia prevê um risco, porém ter menos a bola requer algum limite.

Uma fronteira que mostra o quanto o risco é calculado trata-se do percentual mínimo de 30% da posse de bola, com pelo menos o mesmo percentual em chutes a gol no comparativo com o adversário. No primeiro tempo do jogo de ida, o Corumbaense ficou com 38%, margem que ficou aceitável em razão do cenário da disputa. Dos 46 minutos da etapa, nada menos que 55 interrupções da atividade de bola ocorreram e somente 23 minutos e 35 segundos de bola rolando foi possível.

Na volta, quando analisei os dois tempos, pude constatar uma primeira etapa de quadro parecido com o início do primeiro jogo, entretanto tendo o Corumbaense declinando em algumas carências apontadas no relatório preliminar, de 30 de abril. A posse de bola da equipe, terminados os primeiros 49 minutos, foi de 24%, fator que novamente só não foi catastrófico por duas razões. O primeiro tempo da volta foi ainda mais truncado, com 72 interrupções da atividade de bola (frente a 55 do domingo anterior), apesar dos 31 minutos e 53 segundos de bola rolando.

No segundo tempo, se o Corumbaense saiu da fila, o crédito a Douglas Ricardo é inegável, pois alguma conversa deve ter ocorrido no vestiário para que o equilíbrio tático fosse validado. Diferente do que apareceu no Morenão, no Arthur Marinho, o Carijó não forçou linhas de quatro tão próximas na defesa e meio campo e verticalizou com conexões, graças a subidas do lateral direito Robinho, ou idas de Cleber para faixas mais avançadas do meio, além de sobretudo a manutenção de posse de bola ofensiva com um jogador colocado pelo técnico no lugar de um ídolo.

Por opção de do treinador, Elivelton substituiu Careca, e deu ao Corumbaense o poder de esfriar o ímpeto de ataque do Novo, que embora goste de jogar com a bola ainda não define ocupação entre as linhas dos adversários com trocas de passe, ou aproximação mais regular dos homens de meio na chegada em cruzamentos. Quem sabe, com a manutenção de Basílio do Amaral no comando, a filosofia possa avançar e o time atingir próximo de um padrão tático que o Barcelona atua. Hoje o alviverde já esboça uma semente disso.

Para o Corumbaense, seu treinador, e todo o staff do clube dou os parabéns por saber sofrer e respeitar o amor de uma torcida fanática. Espírito de entrega, garra e o trunfo de ter uma jogada pronta, fizeram toda diferença. Fica agora, depois dessa conquista especial, a questão de aumentar o repertório e se consolidar, quem sabe para um bicampeonato.

Dados da decisão no Arthur Marinho :

• Fator preponderante da análise de desempenho: influência da posse de bola para a indicação de performance e eficácia das estratégias de jogo.

• Jogador mais acionado pelo Corumbaense: Robinho (7 vezes).

• Posse de bola: 1º tempo (7 minutos e 3 segundos); 2º tempo (5 minutos e 33 segundos).

• Posse de bola rolando do Corumbaense em percentual: 1º tempo (24%); 2º tempo (31%), depois da entrada de Elivelton.

• Lado mais utilizado para ataque: Direito, com transições de três passes.

• Lado que mais foi atacado: Lado Esquerdo, com transições em média de seis trocas de passes.

• Organização de espaços na transição defensiva frente ao adversário: Novo atacou com variações de 4-3-2-1 e 4-3-3, para contraponto em 4-5-1 do Corumbaense.

 

Organização de espaços na transição ofensiva frente ao adversário: Corumbaense atacou com variações de 4-4-2 e 4-3-2-1, para contraponto de 4-3-3 e 4-4-2 do Novo.

Danilo Galvão
Danilo Galvão é jornalista, com capacitação em Gestão Esportiva, MBA em Gestão Estratégica de Negócios e treinamentos em análise de desempenho em futebol, pela Universidade do Futebol e Trabalho de Posse de Bola pela FA (Federação Inglesa de Futebol).

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