Opinião

Reeleição apertada e mudanças pela frente no Governo Azambuja

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Uma análise sobre a campanha eleitoral em Mato Grosso do Sul


Desde 2015 tradicionalmente após as eleições escrevo uma resenha sobre a campanha que foi executada. E confesso que desta vez presenciei uma das campanhas mais acirradas que já vi em nosso Estado. Mas sem delongas, vamos lá.

Nas resenhas anteriores eu havia escrito que Reinaldo havia feito um primeiro ano de mandato "morno", com exceção da Caravana da Saúde - uma excelente idéia para reduzir a fila de espera por vagas de cirurgia no SUS. As reduções prometidas dos impostos não acabaram refletindo no bolso do consumidor final e a impopular taxa de inspeção veicular desgastaram muito a imagem de um governo que chegava para se mostrar diferente de tudo o que o Mato Grosso do Sul havia visto e a regionalização da saúde não saiu naquele ano. Isso foi ruim para a imagem de Azambuja porque para o povo "sentir" que houve uma grande mudança no governo é necessário que haja um "choque de gestão", é preciso que grandes ações, obras e realizações sejam iniciadas logo nos primeiros meses de gestão. Azambuja levou um tempo maior que o necessário "arrumando a casa" e como sabemos, a primeira impressão é a que fica. Você pode ler a resenha que fiz do seu primeiro ano de governo aqui, no antigo MS Diário.

Em 2017 também escrevi uma resenha durante o seu terceiro ano de mandato, sobre as alianças que Azambuja fez durante seu segundo ano de governo - e que muitas delas foram desastrosas para a sua administração. Nas eleições 2016 Reinaldo conquistou a maior quantidade de prefeituras do Estado - mas com eleitores insuficientes para lhe garantir uma reeleição com folga, pois não conseguiu conquistar Dourados e Campo Grande- mas teve como prêmio de consolação Três Lagoas e Corumbá, dois importantes colégios eleitorais no Estado.

A crise na Casa Civil naquele ano manchou boa parte da sua reputação e só uma grande reforma administrativa poderia reverter esse quadro que se agravava devido a crise nacional.
Você também pode ler essa resenha aqui, no antigo MS Diário.

Com pesquisas qualitativas periódicas, Reinaldo viu que sua popularidade havia caído em declínio e finalmente começou a reagir: tirou obras do papel, acelerou as que estavam em andamento e se esforçou ao máximo para não deixar nenhuma obra do governo anterior sem finalização - aliás, uma boa sacada de marketing, porque além de não deixar que dinheiro público fosse jogado fora em uma obra inacabada, mostrou a ineficiência do seu antecessor, André Pucinelli.

Porém promessas de campanha importantes como o Hospital Regional de Corumbá e a Maternidade de Ladário não foram cumpridas - e isso acabou fazendo uma grande diferença no final. Eu mesmo - um fervoroso e apaixonado corumbaense pela sua terra - fiz essa cobrança de forma bem enfática, em março de 2017.  Porém depois desse artigo fiquei sabendo que essa questão acabou-se mostrando mais complicada que o esperado ( e daí a importância de não se prometer nada sem estudar as particularidades de cada cidade), porque muitos médicos disseram que não atenderiam em um provável novo hospital que seria construído na parte alta da cidade (perceberam toda uma infra-estrutura médica existente ao redor da Santa Casa?) e convenhamos: a oferta de novos médicos que querem vir para Corumbá é muito, muito escassa (uma realidade completamente diferente dos locais onde foram construídos hospitais regionais). Só um curso de medicina na cidade transformaria essa realidade a médio prazo. Logo, essa promessa havia morrido antes mesmo de nascer, infelizmente - porém houve uma falha em algum ponto da comunicação para explicar isso aí para a população local.

A solução paliativa de equipar a Santa Casa de Corumbá: ampliar o número de leitos e construir um novo Pronto-Socorro ajudou a cicatrizar o orgulho ferido dos corumbaenses e ladarenses, mas não foi o suficiente - a oposição soube explorar isso muito bem para as classes sociais com menor poder aquisitivo.

Sendo assim, o maior inimigo de Reinaldo Azambuja nessa campanha era ele mesmo, na forma de suas próprias promessas.

Em seu terceiro ano de mandato ele havia cumprido apenas 39,13% dos seus compromissos de campanha. Esse número aumentaria para 52,17% em julho de 2018, (e seu partido, o PSDB diz que foram 69,56% promessas cumpridas ) mas já em agosto começaria sua campanha - e isso acabou pesando muito no esforço necessário para sua reeleição, pois o eleitor médio atual não é como o eleitor de 15, 20 anos atrás: antes, quando um candidato prometia algo e não cumpria, o eleitor só se recordaria disso através do horário eleitoral do adversário ou nos arquivos dos jornais em papel. Hoje, com os jornais digitais e os apps de redes sociais instalados em cada celular, o eleitor mantém essas lembranças vívidas todos os dias - o que deixa bem complicada a situação do político que deixa pendências em sua gestão.
   
Podemos culpar Reinaldo pelo não-cumprimento de suas promessas? Claro que não: a crise e um cenário nacional completamente desfavorável à gastos públicos, aumento de salários e investimentos impediram que sobrasse dinheiro das contas públicas para isso. Mas podemos culpar Reinaldo por TER PROMETIDO. Apenas isso.

A campanha do ex-Juiz Odilon e dos seus adversários mostrou-se fraca demais, os candidatos não demonstravam o mínimo de empatia  com a população e optaram por concentrarem-se nos ataques ao Governador. Todos os seus adversários souberam explorar muito bem o mote das promessas não-cumpridas e os escândalos que aconteceram em seu governo e que a mídia soube explorar muito bem, inclusive a prisão do seu filho em plena campanha eleitoral (contrariando a Constituição Federal, pois ninguém pode ser preso exceto em casos de flagrante delito, sentença criminal condenatória por crime inafiançável e desrespeito a salvo-conduto) em uma ação até hoje nebulosa e que carece de maiores explicações.

Se Reinaldo tivesse cumprido pelo menos 80% de suas promessas de campanha e explorado isso da mesma forma que foi explorado em seu último programa eleitoral - trazendo o emocional ao máximo para a telinha do eleitor - Reinaldo seria reeleito facilmente no primeiro turno, o que não aconteceu.

No segundo turno, seus adversários perceberam que o Rei sangrava e intensificaram seus ataques - inclusive com uma vergonhosa desmantelação de uma "fábrica de fake news" - o que serviu para mostrar que nem mesmo "homens da lei" jogam limpo quando o assunto é lutar pelo poder. A prova que esses ataques estavam surgindo efeito é que Reinaldo venceu em 66 cidades no primeiro turno e no segundo, apenas 55 - perdeu inclusive em Dourados, uma das cidades que MAIS RECEBEU OBRAS e INVESTIMENTOS em toda sua gestão e com certeza Reinaldo terá que rever isso aí, o que aconteceu. 

A sorte de Reinaldo é que o seu adversário era muito ruim nos debates e praticamente não apresentou nenhuma proposta convincente ao eleitorado mais consciente. Os debates foram decisivos para demonstrar que Odilon não tinha o mínimo do conhecimento necessário do Estado para se tornar um governador - talvez porque tenha passado boa parte do seu tempo de vida trancafiado dentro de um escritório, sem conhecer de perto a realidade das cidades e das pessoas que vivem nelas. Para se ter uma idéia do nível de conhecimento do ex-juiz, no último debate televisivo  da Globo ele indagou Reinaldo sobre a MATERNIDADE de Corumbá, como se ela não existisse - mas que foi fundada em 1904 e aberta ao atendimento público em 1912. ISSO porque o ex-juiz Odilon MOROU um bom período em Corumbá.

Esse despreparo visível foi fundamental para que esse eleitorado mais preocupado com o futuro do Estado reafirmasse ou mudasse seu voto em favor de Reinaldo Azambuja - afinal de contas "Azambuja pode não ter feito tudo o que eu queria, mas fez alguma coisa." - o que não deixa de ser uma verdade, pois seu governo realizou obras e investimentos nas 79 cidades do Estado.
E desta forma, a competência do juiz foi sendo questionada nas redes sociais. 

Favorável à vitória do Reinaldo, o ex-juiz Odilon fez uma campanha baseada no "combate à corrupção" e em cima de uma imagem de "homem íntegro, honesto" e um defensor "implacável contra o crime" (na pegada de Jair Bolsonaro, tentando criar simpatia com os eleitores dele) - mas na primeira oportunidade que teve, não hesitou em fazer uma aliança com o ex-governador André Pucinelli - que está preso por corrupção - enviando seu próprio filho Odilon Júnior para realizar essa negociação e pior, negando veementemente esse fato ( e por tabela subestimando a inteligência do eleitor ). 

Mas negociar com presidiário em um estado onde Bolsonaro - um candidato que durante toda a sua campanha combateu esse tipo de coisa - e que teve 65,25% dos votos no Estado não é algo legal a se fazer. E isso também pesou na balança na hora do voto.

O ex-juiz também errou na hora de dizer que tinha o apoio de Jair Bolsonaro - quando só Reinaldo mostrava um vídeo de agradecimento do Capitão - e que para os bons entendedores de política, isso era o suficiente para mostrar QUEM Jair Bolsonaro apoiava em Mato Grosso do Sul, mas que por questões estratégicas não poderia explicitar tal apoio. 

Marketing ruim, venceu o melhor (e que tinha trabalho realizado).

Enfim, Reinaldo Azambuja agora tem um longo desafio pela frente se quiser que o PSDB tenha uma sobrevida em Mato Grosso do Sul e quiçá, garanta sua vaga ao Senado daqui a quatro anos - o que eu imagino que ele fará.

Reinaldo continua sendo um dos melhores gestores que Mato Grosso do Sul teve - e mesmo com seus erros - mostra-se disposto a corrigi-los.

Para isso, ele terá que fazer uma detalhada avaliação de onde errou e, despido de qualquer manifestação de ego, com humildade consertar esses erros em cada ponto estratégico necessário à sobrevivência do seu grupo político. Rever alianças, concretizar o restante de suas promessas de campanha e aproveitar o cenário favorável à economia que desdobra-se à sua frente.  
 
O "susto" que Reinaldo levou nessa campanha servirá para uma profunda reflexão do seu novo governo. Mais do que nunca, o governador reeleito passará a ouvir MAIS o povo sem intermediários e assessorado por pessoas de sua estrita confiança, para assegurar-se que está no caminho do que a população quer - e não dos interesses dos gestores ou lideranças políticas regionais. Definitivamente, será um NOVO governo.

Esta eleição - em especial a de Jair Bolsonaro - acabou mostrando que no final das contas, os "intermediários políticos" estão ficando em segundo plano, que a voz do povo está cada vez mais direta e ampla - e não só Reinaldo precisa atentar-se para isso, mas também todos os políticos eleitos precisam estabelecer um canal de comunicação efetivo, mais direto e mais sincero com a população que os observa diariamente.

Definitivamente, a forma de fazer política mudou - e só permanecerá no jogo quem se adaptar ao novo ambiente.

Para a velha política, game over.

Fábio Marchi
Um bugre que gosta de escrever.

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