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A grife musical Desplat

Por Rodrigo Fonseca (Especial para o Correio da Manhã)

A Encontrar um repertório de melodias capaz de reapresentar a história de Pinóquio às novas gerações é o desafio que o maestro francês Alexandre Desplat - ganhador de um par de Oscars e comparado a titãs como Ennio Morricone, Michel Legrand e Maurice Jarre – terá pela frente ao fim da 40ena global, num projeto de animação pilotado pelo realizador mexicano Guillermo Del Toro. Antes disso, o músico parisiense de 58 anos tem um encontro marcado com cinéfilos de todo o mundo – assim que as salas de exibição puderem retomar seu fluxo de trabalho com plena regularidade e segurança – na trilha sonora de um dos filmes mais esperados deste 2020 assolado pela Covid-19: “The French Dispatch”.

O novo trabalho de Wes Anderson, o cultuado diretor de “Os Excêntricos Tenenbaums” (2001), é musicado por Desplat, cujo talento embala o périplo de um time de jornalistas na França da primeira metade do século XX. Curiosamente, as duas estatuetas dele vieram por um filme de Wes - “O Grande Hotel Budapeste”, de 2014 – e pela obra- -prima de Del Toro: “A Forma da Água” (2017). As partituras que fez agora para o inédito de Wes foram compostas nos meses anteriores à atual pandemia, em paralelo a projetos pessoais - um disco de músicas inéditas, sem conexão com o cinema – e a um sonho cheio de... brasilidade.

“Sempre desejei esbarrar com o Chico Buarque aqui em Paris. Eu moro nos arredores do Marais, e espero sempre encontrar Chico por ali, ao virar da esquina. Sei que ele mora por lá, mas ainda não tive a sorte de cruzar com ele. Sou um fã da MPB, que tem estado muito presente na minha educação musical desde os 13 anos. Ainda adolescente, eu comprava todos os vinis que podia comprar, desde Sivuca e Rosinha de Valença até Evandro do Bandolim”, diz Desplat ao Correio da Manhã, em entrevista por e-mail.

A pedido da Unifrance, órgão que norteia a circulação interna e externa dos filmes feitos em solo francês, expoentes do cinema feito em Paris, Marselha, Nice e arredores, Desplat e mais uma leva de artistas do audiovisual europeu têm conversado com a imprensa internacional, a fim de promover o intercâmbio de culturas. Nomes de prestígio como a diretora Claire Denis (“Bastardos”) e a atriz Sandrine Bonnaire (“Os Renegados”) hoje conversam com jornalistas pelo mundo afora para realçar a importância de se preservar as narrativas cinematográficas e indicam seus filmes favoritos, a serem vistos (ou revistos) neste dias de #FiqueEmCasa. “Sugiro ‘Amarcord’, de Fellini, e a música de Nino Rota”, disse Desplat, que se encantou pelas trovas buarquianas ao ouvir “Construção”, nos anos 1970. “Na minha adolescência, comprei um disco intitulado ‘Braziliana’, que incluía gravações de João Gilberto, Tom Jobim e Luiz Bonfá. Naquele LP, a paixão por essa expressão musical brasileira, que é sofisticada harmônica e ritmicamente, contagiou-me com seu balanço diferente. Aos 17 anos, integrei um grupo de bossanovistas no qual tocávamos todas as maravilhosas músicas que descobríamos. Ao lado de Jobim, Edu Lobo rapidamente tornou-se o meu compositor favorito”.

Sucessos como o recente “Adoráveis Mulheres”, “Argo” (2012), “O Discurso do Rei” (2011) e “A Rainha” (2006) contaram com trilhas compostas por Desplat. “O amor pela música me leva a trabalhar 18 horas por dia”, diz o prolífico maestro, que compôs a música de “O Oficial e o Espião”, que deu a Roman Polanski o Grande Prêmio do Júri no Festival de Veneza de 2019. Escalado para presidir o júri do festival em 2014, quando atribuiu o Leão de Ouro ao sueco Roy Andersson e seu “Um Pombo Pousou num Galho Refletindo sobre a Existência”, Desplat já foi ator, tendo trabalhado sob a direção de George Clooney em “Caçadores de Obras-primas”, em 2014. Ele só não considera se lançar como cineasta. “Dirigir um filme seria uma aventura”, diz o compositor. “Mas a música é o que me faz vibrar”.

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