Por: Rodrigo Fonseca | Especial para o Correio da Manhã

Luz, câmera, prazer

Já octogenária, a diretora Roberta Findlay tem sua obra revista em retrospectiva no Estação Botafogo | Foto: Divulgação

Chegou faz pouco tempo aos buscadores digitais de livros, como a Amazon, uma bibliografia perfeita para se entender a quebra do moralismo americano entre o fim dos anos 1960 e o boom da Aids, no início da década 1980: o livro "Refocus: The Films of Roberta Findlay", organizado por Peter Alilunas e Whitney Strub para a Edinburgh University Press. Como não tem edição no Brasil, o jeito é encomendar online. Enquanto não chega, a melhor forma de se entender a cineasta de uma destreza técnica invejável abordado em suas páginas é dando um pulinho no Estação Botafogo, na sala 2, e curtir a retrospectiva da carreira de Roberta e seu companheiro, Michael Findlay (1937-1977).

Nesta segunda, às 16h45, rola "O Degenerado" ("The Degenerate", 1969), seguido de "A Invasão dos Fazendeiros de Sangue" (Invasion of the Blood Farmers", 1972), às 18h15; de "Qualquer Um Menos O Meu Marido" ("Anyone But My Husband", 1975), às 19h45; e "Irmãs de Sangue" ("Blood Sisters", 1987), às 21h15.

Nessas quatro produções é possível compreender como a octogenária realizadora construiu um legado de erotismo e terror filmando nos EUA beeeeem abaixo das tabelas de Hollywood, com foco em crônicas comportamentais sobre o desejo, as taras mais criativas, a liberdade de ser profeta de seu próprio destino e o conservadorismo. Não por acaso, "Refocus" dá uma aula de fortuna crítica ao abranger o cinema dos Findlay sob variedade de ângulos, num panóptico queer, feminista, histórico e político. Os capítulos examinam as estratégias de marketing de Findlay, a política de género de seus filmes de tesão hardcore e suas investidas no horror, numa linhagem narrativa que não se rendeu ao sexo explícito da indústria pornô.

"Eu dirigi e fotografei cerca de cinquenta filmes classificados como X (impróprios para menores) e dez ou doze filmes classificados como R ou G. Nunca mantive um registro. Eu jamais, em toda a minha carreira, sofri preconceito contra mim por ser mulher. O que parece estar faltando em todas as profissões é a capacidade de fazer o serviço. Eu conhecia, tecnicamente, tanto quanto ou mais do que qualquer técnico do sexo masculino. Conversar profissionalmente com homens sobre ângulos de câmera, lentes, iluminação etc. rapidamente descartava o fato de que eu não era um homem. Nunca sofri nenhuma misoginia direcionada a mim", orgulha-se Roberta, em depoimento dado ao Correio da Manhã, colhido pelo curador de sua mostra, o crítico e cineasta Mario Abbade.

Realizador de documentários sobre Neville D'Almeida e Ivan Cardoso, Abbade descobriu o modo de filmar econômico (mas ousado) dos Findlay, em 1982, quando aluguei "Snuff" em uma locadora em Ipanema que trabalha com fitas de VHS importadas.

"O tal longa, o mais alugado durante mais de três meses, ficou famoso por, supostamente, trazer uma cena real de assassinato - assunto mais comentado então na locadora", diz Abbade. "Convenhamos que a baixa qualidade das fitas de VHS ajudou a disseminar a lenda, já que não dava para ver detalhes com precisão. Depois dessa primeira experiência, saí em busca de mais filmes do casal de diretores. Na época, não era fácil conseguir informação sobre as produções mais novas, então, era uma alegria quando se conseguia ler algo a respeito do tema ou ver um filme recém-lançado lá fora. Tais fitas eram importadas e a grande maioria provinha de companhias independentes como a Something Weird Video, fundada em 1990. De lá para cá, tivemos a chegada do DVD, do Blu-ray e dos arquivos digitais na internet, o que facilitou, finalmente, planejar a mostra, com o adendo de receber a bênção da própria cineasta, aos 81 anos de idade".

Nesta terça, a mostra Findlay leva ao Estação (às 18h10) o nada pudico "Possua-me Nua" ("Take Me Naked", 1966), seguido do precioso "Demônio, O Rei das Trevas" ("Prime Evil", 1988), às 21h15. É um estudo de Roberta sobre o Mal.

"Eu sempre disse que se Michael não tivesse retratado esses horrores nos filmes, ele poderia muito bem tê-los perpetrado na vida real. Comigo ele muito raramente era agressivo, mas tinha esse lado que era muito estranho", conta Roberta.

Nesta quarta, o menu montado por Abbade exibe iguarias como "Horas de Luxúria" ("Lusting Hours", 1967), às 16h40, e "Anjo Número 9" ("Angel Number 9", 1974), às 19h30.